Sexta-feira, 6 de Março de 2009
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Texto sujo. Desinteressante. Ladrão de tempo.
Igual a muitos outros.
Catarse.

nunca soubeste olhar para mim. nunca me preservaste. nunca paraste para me pensar.
naquele dia morreste-me. mataste-te de mim. [ou tiveste uma morte lenta, em que eu não queria acreditar]

mais uma no meio das que (já) contam demais. uma morte em grande. como o teu tamanho, vá lá. uma chacina singular, se és digna de tal. sem um esvair de sangue viscoso e pestilento mas, ainda assim, no meio do holocausto (aquele negado pelo bispo). um fantasma que assombra de dia, que de noite tem medo. uma lógica contrariada.

pratico culto a gente incerta, talvez seja esse o erro. erro tão a vermelho que, agora, já nem o culto pratico (com medo da negativa).




Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
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Não me cabem as grandes imperfeições dos outros. só as piadas secas e os narizes tortos, congénitos. Já sou balde suficiente de imperfeições.  a contar pelos cabelos eriçados.

 

Tenho arranhões nas mãos. dos gatos de cidade. Só me ardem quando lavo a loiça e a roupa suja. mas todos os males custam a sair, até as nódoas.

 

Uma aproximação não exige (espaço). A proximidade é o (espaço) da aproximação. Para haver aproximação não (espaço) que haver proximidade. Por (espaço) telefono-te e digo que quero estar contigo. Tu dizes-me (espaço) para fechar os olhos e me imaginar a teu lado. Eu, insatisfeita e amuada, (espaço) a resposta e desligo. Para (espaço) aproximação requer proximidade. É por isso que, antes de te amar (espaço).

Há dias em que aborreço o que escrevo. Em que não me apraz ser poeta e me deleita ser poeta. Ridícula dubiedade. Tento aceitar que não sou poeta! Ou que os poetas não o são todos os dias! Ou que sou poeta da farinha amparo ‘Compre, compre que nunca sai caro!’.

Existência Q, doença pelo Cox e Ela.




Sábado, 24 de Janeiro de 2009
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O corpo tem muitas caras e, a alma, tem muitos corpos.

Ele ruma contra a maré.



publicado por Elisa às 23:00
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Sábado, 17 de Janeiro de 2009
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Os elogios são edemaciantes. Afectam particularmente o queixo e, os lesados, tendem a apresentar uma lordose cervical acentuada. A roçar o patológico.




Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009
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Provérbios-morte de uma relação a prestações.

(doença) Quem na pele não se põe, da vida não percebe.
(convalescença) Quem muito dá, tudo perde.
(paliativos) Quem fica, sempre vai.
(morte) Quem chora, não consente.



publicado por Elisa às 22:35
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Há qualquer coisa de entediante na insipidez das pessoas.

Cortem-me os dedos. Vá, venham! Venham de olhos escanzelados e com vontade esganiçada de furar vidas como quem fura balões. Venham de cheiro pestilento ou com o perfume opulento da loja mesquinha de toda a gente. Venham incultos mas bem enfarpelados e tragam um serrote afiado e de marca. Ou venham, até, esfrangalhados e com uma faca de cozinha. Venham torcidos para a frente, de passos enviesados, ou venham direitos e entroncados. Venham de boca afiada ou taciturnos e calados. Tragam gravata ou cachecol de lã. Venham como quiserem e bem vos aprazer. Que eu cá me fico.

Podem roubar-me os dedos mas o resto fica, meus amigos.



publicado por Elisa às 21:32
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Domingo, 28 de Dezembro de 2008
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sou abrid’oira de caminhos.
desbrido ideias. equívocos. cómodos ninhos
de mentira e de engano. atiro-te para o mar
profano. do erro. do chamado ‘mundano’.
sou a pedra no sapato. incomodativa,
nada de concreto. há em mim, e agora
em ti       que te roubei do caminho certo
uma constante infindabilidade. medo
de não ser o que querem. de comer do prato
ao lado. de ofender o fado. a sina de ter sido,
mal-criado. um engano despercebido. de não ser.
aceite. ser uva ou azeitona. ser vinho ou azeite?
que importa. fico na ronha. durmo no ano todo.
cheio de brincar ao Carnaval. de sentir e fazer mal,
mostrar ao contrário. agradar ao vigário. de ignorar
o que se sente




Domingo, 21 de Dezembro de 2008
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A humidade de um banho.



publicado por Elisa às 20:07
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O J aprende a ler.

Não me apetece ser poética. Apetece-me ser estúpida.
O J era um tipo afunilado e de ar rafeiro. Ele vivia-se feliz. Comia dióspiros porque lhe fazia lembrar o amor. Dizia ‘o amor é como um dióspiro maduro, não há fruto mais doce’. Muitos o encaravam como presunçoso e exibicionista, mas ele era pequeno e de escassa significância, e sabia disso. Estava confortável no seu tamanho centimétrico: cabia na sua cama sem que os pés ficassem de fora. Passeava-se, quando lhe dava na veneta, por ruas que não constavam na lista caprichosa de pontos turísticos.
Contentava-se com pouco. Só lhe ferviam os azeites na presença de gente mesquinha de olhares frívolos. Andava tabuamente direito, como se tivesse sido planeado por um alinhamento arquitectonicamente bem estruturado de traços rectos. Raramente o importunavam, afastados com a imponência da sua estatura e a estranheza das suas ideias e opiniões pioneiras.
Dentro de si havia uma sala minuciosamente arrumada. Tinha prateleiras profundas onde tudo cabia organizado por temas. No chão ficavam sempre um ou dois pedaços, para não dar a ideia que era uma sala inabitada nem a sensação de que já não havia mais nada para tratar. Havia um sentimento constante de infindabilidade. Havia um sentimento constante.
O J nunca aprendeu a ler. Nasceu com capacidade atlética de reconhecer as palavras e transpô-las em sensações, caras e lugares. O J tinha essa chaga. Doía-lhe a sensibilidade afinada para a leitura. Havia quem lesse e não sentisse, mas ele estava confinado aos limites exigentes da leitura sentida. O J cheirava a palavra morte e chorava a apalavra saudade. A morte cheirava-lhe flores fúnebres, crisântemos. A saudade apertava-lhe a existência.
O J era assim: um tipo afunilado e de ar rafeiro. Um rafeiro bonito, dos que tombam a cabeça de lado para pedir comida.
Os rafeiros são o melhor amigo do Homem.




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Podias estar mais perto. Talvez o suficientemente perto fosse determinado pelo perto suficiente para me embaciares os óculos. Podias apertar a minha cintura com força decidida, não a força trémula e esguia com que arriscas a tua sorte no meu corpo. Podias afastar o cabelo grisalho dos meus olhos verdes, fugidos da igreja, não só desviá-los rapidamente como quem esconde gestos entre meias palavras de conversa. Podias mostrar-te mais transparente, não me deixar sozinha com adivinhas e charadas do segredo ilegal que te apresentas. Podias.

Tens a dose certa de loucura. Talvez uma colher de chá a mais, mas só para espicaçar as linhas rectas sobre as quais construí a minha casa. Tens as mãos gretadas do frio, talhadas pelo vento que não tem ninguém que o aqueça na cama. O vento não tem cama nem tem ninguém que faça amor com ele. Não tem onde ficar. Tens uma mão livre e uma cheia de muita coisa. Tens uma mão livre. Essa é a minha mão.

O frio sai do congelador em jeito de tornado e corre pelos cantos da casa. Há um riso maléfico neste jogo do quarto escuro. Foge pelas frinchas das janelas e pesca mãos para polir. O frio não tem dó. Não tem cama nem ninguém que o ame. Rói, em jeito de petisco, as mãos livres. Um dia roeu a mão que estava estendida para me apanhar e eu caí.

Mas há mais.



publicado por Elisa às 01:01
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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
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Se cada ano te contasse um dia, como este ano pareceu contar, terias agora vinte e um dias. São os teus dias, os vintium que passaste. Ainda vês o mundo com ingenuidade. Ainda gostas que te afaguem o cabelo quando estás triste ou doente. Se te oferecesse um baloiço tinha a certeza que te ias sentar nele em dias quentes de Outono. Ainda és a criança que nunca conheci mas que gostava de ter conhecido. Cabelos bonitos, daqueles que só se vêm os filmes e anúncios virtuais da Loreal Paris. É Paris, ali tão perto de Londres. Às vezes noto-te numa peleja para te veres nesse mundo. No sotaque britânico. No chá das quatro com biscoitos da avó. Nas ruas confortáveis, que não são as nossas. MB. A vida não nos tem aberto janelas solarengas, daquelas que aquecem os cobertores nas manhãs de Primavera. Não nos deu mapa, nem bússola, nem guia, nem sapatos que não fazem bolhas. Já não nos abraça ao acordar, já não nos segreda romances de amor, já não nos oferece rebuçados de mentol nem diz ‘Que olhos tão bonitos!’. Andamos de olhos cansados.

 
Levo-te comigo, debaixo do braço.

 

Tenho brócolos no prato. São verdes escuros - já amadureceram. Cozinhaste-os lentamente, para ficarem doces ao toque.

 
Li.


publicado por Elisa às 10:23
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
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A faculdade tinha uma ampulheta. Todos geriam o tempo pela ampulheta. Quando o tempo foi instalado naquela instituição vieram os mais ilustres da sociedade vislumbrar tamanha obra. Os alunos não ousavam chegar mais tarde. O último grão de areia delimitava as fracções entre um repreendimento e um ‘bom menino de Jesus’ já sentado na secretária. Hoje, anos mais tarde, o fio que suportava o grande peso da ampulheta está gasto. O vento que entra pelas portas entretém o tempo nas lengalengas.

 

Até a missa mudou para Sábado.

 



publicado por Elisa às 23:00
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Sábado, 13 de Setembro de 2008
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Era uma vez uma janela cega que folheava álbuns de fotografias.




Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
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Post para dizer blá blá blá.




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Desculpa.

Palavra inventada para dizer nos erros múltiplos de dez.



publicado por Elisa às 13:07
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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
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Nunca te menti.
Sou despenteada e tenho a cara suja.
Um dia olhei para ti.


Amo-te.
Às vezes doi.
Mas, no geral, é a melhor coisa que alguma vez senti.

 




Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
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Sem sentido.
Esta coisa das prioridades...
A prioridade é um boi sem cornos que, como é grande, se impõe na paisagem e se vê bem ao longe. Há pessoas com miopia que o confundem com javalis, o que dá uma misturada demasiado grande para quem quer fazer as coisas como deve ser.




Domingo, 10 de Agosto de 2008
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O gajo das baratas coleccionava baratas. Vivas, mortas, mais para lá do que para cá. Bataras asiáticas, europeias e americanas. Baratas com dupla nacionalidade. O gajo das baratas coleccionava baratas.
Havia os que lhe batiam à porta para ver o estaminé. Os que não se aproximavam da casa mas inventavam mitos que corriam raças e países. Os vizinhos isolaram o quintal com plástico para evitarem terem baratas a comer as couves que plantavam no quintal. Os familiares mandavam postais de boas festas e, quando o gajo das baratas os visitava, simulavam que o entendiam como um ladrão e enchiam-no com raid em defesa pessoal.
O gajo das baratas gostava de baratas de um modo peculiar. Gostava porque sim e que não o chateassem com isso.




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Sai a catraia à rua.

Sua mãe havia-lhe dito, em jeito de raspanete, Maria, o sol é para quem o merece! Hoje não sais!  A catraia pensou que o seu lenço novo merecia ser polido e saiu a rua.



publicado por Elisa às 22:46
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008
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'o meu umbigo'

e pronto



publicado por Elisa às 19:35
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Sempre houve daquelas perguntas para nós mesmos. As que fazem mechericos na pontinha de senso que tentamos ter quando pensamos.
Meu Deus, tira-me a lógica e ainda me resto... Tenho as mãos secas.



publicado por Elisa às 18:41
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2008
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Porque o dia merece, sento-me à sombra do sobreiro para um desassossegado relato. Saco a lapiseira da algibeira deslavada do velho. O bico está redondo e enerva o papel que escapa à cinza. Que sina malvada esta: até ao lápis me exige cabeça fresca!
Estava, então, um estorricante dia de sol. Lá na aldeia o povo abrigava-se do matreiro na tasca do Ti Jaquim, o único estaminé que tinha ar condicionado e umas quantas ventoinhas nos cantos.
Vem da chofra o Zé do Pipo. Espera à porta até o olhar descobrir cadeira livre naquele acampamento de odores castiços. A ‘máquina do frio’, exactamente por cima da mona calva, esfria-lhe o sentido e arrepia-se. Levanto a mão dando-lhe sinal que junto à minha lavra há lugar para traseiro abundante, como o do velho. Caminha dobrado em ponte, como que a pedir às crianças para saltar ao eixo, até atingir a cadeira em que se senta com dificuldade. Abana-se custosamente até arranjar cama jeitosa para o abundante assento (que criou à custa da comida do lar de dia, desde que a sua mulher foi para outros mundos) e, durante os aprontos, pergunto-lhe como vai a vida. Pior pergunta não podia ter sido acarretada pela minha vã inteligência. Escorre-lhe, enquanto o tinto cai pela garganta, a lista pormenorizada de queixumes agrestes (dos que haviam estado a fermentar desde os tempos em que me mudei para a terrinha). Isto tem sido um pará para burro. [funga, como que a encontrar consolo na sua tristeza] Cá na minha chafarica já não nasce o sol há muito tempo. E, fitando com atenção, vejo as nuvens de inverno a nascer no olhar do velho. Depressa me arrependi da inocente pergunta. Mas ouvi. A médica está inclinada que esta dor que me morde seja a ciética. Isto ó-despois arremexe aqui com os mês entestinos. Interrompi-o para lhe dizer que o chouriço que comia todas as manhas na tasca não adivinhavam bons destinos para esses males, como que a tentar aconselha-lo sem ferir susceptibilidades. Tire daí o sentido que eu não faço isso! Defendeu-se de arma em punho. E calei-me para ouvir novamente. É certo que a vida do pobre não era fácil. Pouco lhe caía na algibeira ao fim do mês. Mesmo contados os anos de trabalho explorado nos campos do Alentejo, a força que roubou às pernas a fazer queijo e, a somar, os últimos anos de esforço sobre as ordens da ‘cãmbra’ da cidade vizinha (quando os ossos já lhe pesavam). Todos sabem que a estrada de alcatrão até à terrinha havia sido obra principal do desgraçado. Já não me aguento nas canetas. Nem a cresta posso fazer! Minhas ricas abelhas, onde eu havia de chegar... A minha mulher cantava-lhes, sabia? Tinha-lhes muita estima. Agora de mim? Se lá volto um dia escaldam-me... Sou um monstrengo com um esgotamento no cérevro. Nesta fiquei perplexo. Nunca tive jeito para mais do que umas pancadas ligeiras nas costas, e foi o que fiz. Senti-me pequeno na minha escassa grandeza.




Terça-feira, 8 de Julho de 2008
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Os acessos de vaidade desmesurada ratam-lhes as pestanas.


publicado por Elisa às 20:37
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
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História fantasia.
Houve hoje um velho, com óculos de Harry Potter, a aparecer na consulta de urgência. Vinha desajeitado e aparvalhado (a varinha mágica era o cajado, roido das pedras da calçada da tasca dos copázios). Sentou-se porque o puxaram para a cadeira: caso contrário ficaria de pé - há que obedecer ás forças armadas! /e nisto entram as enfermeiras, de seringas-rebarbadoras de metro e meio, com cara de serventes da PIDE e roedoras nazis/ O homem senta-se e olha para o médico com olhos escanzelados e perdidos no tempo e no espaço. Se lhe dissessem que era preciso matá-lo para resolver a enfermidade estou certa que concordaria. Agradeceria, até, ao doutor dizendo ‘Muito obrigado Sr. Dr.! Amanhã a minha filha traz-lhe um coelhinho lá da criação, Sr. Dr.’ /seguir-se-ia vénia dorida ao Deus de ninguém/. Perguntaram-lhe a idade. Fizeram-se piadas à volta dos anos de sol daquele bebé carnudo e encarquilhado. Um ajuntamento fofoqueiro e troçante rodeando uma criatura. O velho, na sua enervante inocência, recitou um poema para a resposta. (...)Nasci a 2 de Fevereiro de 1918, numa terra fantasia.(...) Os olhos circundantes abriram-se num misto de admiração estúpida, com os cantos dos lábios a quererem esconder a vergonha de uma gargalhada ofensiva, a cultivarem emoções falsas por um homem velho que AINDA sabia fazer poemas.
Prespegaram-lhe o estetoscópio frio nas costas cheias brancas-cal, rafeiras de trabalho árduo de tempos idos, repuxando-lhe a camisa que a mulher lhe comprou (antes de ir para o fantástico céu que não existe) na tabanca com os trocos que mal chegavam para, no fim do mês, ter o prato com um adereço alimentar. Fizeram-se-lhe vincos na pele magra mas o orgulho do homem-sensação-de-circo ignorou as irritantes reincidivas de descuido. /e entretanto chegam gentes de todo o lado, espreitando à porta e à janela, gritando juizos de análises e exames e diagnósticos, como quem espera na praça para ver o tormento dos que desagradam à inquisição/ Comentam-se destinos e a má sorte do velho. Chega depois o relato sensacionalista, acrescentado de pontos falsos à moda dos media modernos, da vida sofrida da criatura. Houvem-se ‘ahhh’ colectivos. Caras de surpreendimento. (...) Mas ninguém trata do velho.
Morreu a 2 de Fevereiro. No dia seguinte a filha leva o coelhinho ao médico.
Belo pitéu nessa noite.




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Matem-me. Esta amargura.



publicado por Elisa às 22:22
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Hoje diagnosticaram-me a doença de ser ninguém. Como era ninguém não me sabiam tratar.  Não arranjaram cura para coisa inexistente. Fiquei assim, com o aperto em lado nenhum, a contorcer-me por coisa nenhuma.




Domingo, 6 de Julho de 2008
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listen

2-6-216-8-9



publicado por Elisa às 19:18
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Sábado, 28 de Junho de 2008
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# E dói-me tanto ver-te de lábios serrados. Quando as pálpebras, sensíveis, deixam de ter força suficiente para mostrar a cor. Oculto-me de mim (de ti) e sou fria, distante e inatingível. Sei que te toca... e se te toca a ti: atormenta-me. És-me o ar respirado sofregamente. O suspiro de alívio. O ‘quero-te bem’ segredado. Guardar-te-ia em lugar inacessível não fosse o meu respeito por quem também te gosta.
Pintalgas-me a vida de arte. Sou um quadro pintado às tuas mãos. Miscelânia curiosa dos teus sons, imagens, toques e palavras. Compões-me todos os dias um bocadinho. Sem pensar, transformas ângulos, cores, texturas e formas. E eu permito-te. Às vezes sem saber quem é o pintor e quem é o quadro. Confio em ti. Nas misturas e trocas de papéis. #



publicado por Elisa às 00:06
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008
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Se ela morresse hoje vê-la-iam a subir dançando ‘just for now’.
Ficaria o peluche a dormir sozinho nos lençóis com cheiro ao seu gel de banho.
Os segredos escondidos no caderno, a tinta preta.
A guitarra torta, encurvada pelo calor dos canos que aqueciam o quarto, ao canto.
Os livros de estudo riscados com cores pindéricas. Canetas abertas ao lado, a secar.
O sol a pôr-se e a máquina fotográfica ligada, no parapeito da janela. A Bateria a gastar-se.
As tristezas por resolver e os carinhos por dar. Suspensos à volta dos destinatários.
Os sonhos divididos por quem um dia ouviu os desabafos.
O bilhete de avião por comprar.

 

Ela também não faria as malas.




Sábado, 21 de Junho de 2008
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Que solidão esta de não sentir a tua mão por perto.
Arranha-me quando me afastas.
Apertam-me as tuas necessidades de ti quando nem a ti te tens por completo.
Chora-me tudo não me deixares juntar peças (contigo).
Aflige-me a tua volatilidade, a tua leveza de ser, o teu olhar ingénuo.
Arromba-me a vontade não teres vontade nenhuma.
Entristece-me a incerteza nas certezas que pensas ter. Nas que sabes não ter.
Desconsolam-me os saltos obrigados que forçam entrada.  A porta frágil da tua casa.
Cansa-me a insegurança.
Riscam-se-me os planos que sonhei serem certos.
Agarram-se-me as mágoas, ávidas, quando te ocultas (in)voluntáriamente.
- silêncio -
Corro-me de mim.
Desanuvio-me ansiosamente.
Perco-me.
Não me procuro.


publicado por Elisa às 22:22
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‘Wake me up before you go.’ lembrei-me quando me apercebi que te foste. De vez. Não te custou sair de viagem. Preparaste-te para isso pelos arrastados anos da tua vida, sem nunca fazer a mala. Não vais regressar mas esperas o meu sorriso caso o teu azul me olhe de novo, naquele lugar que sabes certo. Te-lo-ás. Meu conforto.
Chegava-te, cansada e desarranjada, naqueles dias em que as histórias me empolgavam. A sala anexo era fresca e aconchegava-me como um cobertor no Inverno frio. Ficava-me. Perguntavas-me por mim. Pelos caminhos, pelas vitórias, pelas derrotas. Contava-te. Com mais ou menos linhas. As omitidas não te eram transparentes. Sabias me adivinhar muito bem. Talvez soubesses adivinhar toda a gente.
Relagavas-me com as tuas leituras do mundo. Ouvia-te atentamente. Crescia pelo rumo que me mostravas. Pelos presentes que me desembrulhavas cuidadosamente, para não estragar o papel (não fosse um dia ser importante). Acariciavam-me as tuas palmadinhas na cara, com a precisão trémula.
Ponto final.
Qualquer dia continuo.



publicado por Elisa às 22:20
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Sábado, 7 de Junho de 2008
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Fecho os olhos e estou lá. Silenciosamente, no meio de toda a vibração de corpos.



publicado por Elisa às 02:07
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Domingo, 1 de Junho de 2008
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Em tempos fui crente. Não fui absoleta nem me deixei levar sem escrúpulos. Não me ofereci, não me deitei á maré, não me deixei aprisionar. Não vendi os meus valores, não cedi à chantagem. Fui crente à minha maneira. Fui feliz na minha forma de acreditar e nas minhas jovens interpretações do que era a vida. Questionei, fui ríspida com injustiças, com a passividade de algumas coisas que me incomodavam a existência trémula. Forte não fui. Mas  ele esticava-me o olhar, empurrava-me gentilmente contra tudo e ouvia os meus segredos auto-censurados. As mãos tremiam de segurança. Os gestos já não tinham a precisão do alvo. A velhice comia-lhe o cabelo, a cor azul dos olhos, as pestanas. Quando falava todos ouviam, o discurso era corrente e lúcido.(...)




Sábado, 10 de Maio de 2008
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Tu, a meus olhos
Expressões. Não tomo este texto como uma abordagem anatómica de li, de longe. És muito mais que a beleza dos contornos ou a delicadeza do toque. Hoje escrevo e descrevo as tuas expressões.
Nas manhãs de inverno, em que me chegas de nariz vermelho e resfriado, sorrio para ti. Notar-se-á o quanto te quero bem se descrever os pingos do teu nariz, no constipado leve e constante dos teus Dezembros, como uma gota de água numa nascente. Não me preocupo. Limito-me a ser honesta. O resto da face vem pálida. Talvez haja, de quando em quando, um pouco de rosado na maça da cara... pouco mais. É assim.
Em dias livres do peso das responsabilidades, do aperto do tempo ou do peito agitado por algum motivo de força maior, retribuis o sorriso. Nascem as covinhas suaves na ponta dos lábios e os olhos desenham linhas molhadas de contentamento.
(...)



publicado por Elisa às 11:32
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na fila para nascer havia, no passado, uma roleta gigante que decidia a vida dos nados.
ela tinha a pele encarquilhada, com alergia aparente, e uns olhos cinzentos e grandes.
quando o velho da roleta a viu (de nariz necrosado, de tantos anos de trabalho) ficou impressionado com tamanha imperfeição.
esvaiu-se-lhe a força dos braços e a roleta nao passou Daquela divisão.
foi assim que foi enviada, ao pontapé, e nasceu.

a vida é-lhe uma sala de cinema (assim foi destinado).
borboletas voam a seu lado.
pedem-se meios-desejos.
romanticos sorrisos cinematográficos.
casuais encontros.
puzzles cardíacos.
tempo fugidio.
despedida sem post-it.
she stopped seeking.



Sábado, 19 de Abril de 2008
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Um cheiro de ‘Tu, a meus olhos.’
((Censuro o texto. Não se quer algo demasiado verdadeiro… ou talvez se queira, mas não me permito.))
O cabelo cai-te, leve, sobre a face. Tem cor de sala, na Primavera. Como o sol a entrar, de fininho, pelas fendas do cortinado. É como areia de praia quando passa o vento e deixa marcas, num ondulado tímido mas forte. Sempre perfeito. Macio, como o carinho que se dá aos bebés, escorregando pelos meus dedos como se fossem amigos de longa data.
O teu olhar lembra-me os quadros renascentistas. O brinco de pérola. A timidez e a fragilidade. A cor… é a fragrância do perfume, só teu. [Curioso como sinto que se misturam.] A espontaneidade é marcada pelas sobrancelhas, bem delineadas, que sobem delicadamente quando a ocasião assim o propõe. As pestanas são compridas, com particularidade-segredo, e rodeiam cuidadosamente os olhos que, desde cedo, aprenderam a falar. O nariz tem medida certa, ainda que não concordes, e a diferença (quase imperceptível) permite que o meu dedo brinque nas tardes com presente na rádio. Tem pele de criança, assim como toda a cara. Quando a luz te encontra, reflecte. Diria que brilhas, mas seria demasiado lame. As bochechas têm contorno suave e são mais excêntricas quando te decides a mostrar o sorriso puro. Até os cantos dos lábios, daquela arte, fazem a covinha harmoniosa e pequenina, onde tantas vezes te aprendo.



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Mudo a cor. No fim que importa a cor com que escrevo?
Os meus óculos cair-te-ão, sempre, como as luvas pretas.



publicado por Elisa às 17:34
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2008
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Tomara eu ser outra. Ver com outros olhos. Tomara eu, M, encontrar-me nas coisas pequenas e deixar-me ficar nelas. Perdurar-me. Tomara eu. Mas… sou como gota de água numa onda imensa e aquilo que me agarra à unidade é fraco. Papel permissivo e presente. Não sei onde começou o erro mas parece-me que veio embrulhado. Não te parece também? Passam e contam os dois que andam arrastados, num som duplo e entediante, e eu entedio-me com eles… Deixo-me ir. Sei o sentido da minha vida, o sentido é que não me deixa sabe-lo sempre. Tenho medo e sinto revolta porque não encontro o fim para um início calmo e seguro… E tudo o que eu queria era um continuar calmo e seguro. Constante. Vem a onda e enrolo-me na água, de olhos fechados, cabelos esvoaçantes no vento aquoso e salgado e cheiro a Verão. Serei eu capaz?! Já me pintei num chão num mundo novo. Com as cores de tinta da Mary Poppins mas sem guarda chuva, que da água percebo eu. 10h10min. Lembro-me da Sofia, que me ensinou que todas as horas me guardam um desejo por pedir. Eu peço maré baixa, como aquelas que traziam os pescadores às famílias. Os lobos-do-mar de mãos gretadas (como as minhas), pele seca e rugosa de expressão pesada (como a minha), com os olhos cheios de horizonte azul (como os meus). O meu horizonte azul. Conhece-lo melhor que eu… queria eu poder absorver as linhas inconstantes que o separam. Transpô-lo cuidadosamente para o preto dos meus olhos, quando sonho. Desaprendi a sonhar com o sonho grande e feliz. Perdi azul no caminho… e é noite. Vejo estrelas e lua e cometas e planetas e… vácuo. E no vácuo: só vazio. Onde estou? Li, uma vez, um livro cor-de-rosa. A capa era de uma menina loira de olho azul. Lembro-me de o olhar com atenção. De me dar uma vontade de o ler sem olhar para ele. Curioso é tê-lo lido sem me lembrar da história. Foi o horizonte azul, M. (suspiro) Tomara eu ser longe e manter-me lá. Tomara eu trazer a bola preta para o fim das frases e dos caminhos e do toque e do olhar. Tomara eu. Mas a bola preta é pesada e as letras ocupam todos os meus bolsos. Se te assusta mantém-te longe. Vou para perto do RR. Segredou-me na noite que me vai ensinar a viver os poemas dos Reis. Deixar-me levar pela onda sem que ela me embrulhe. Gozar o sol sem que ele me queime. Tomara eu, M, ser perspicaz e aprender de repente. Não acreditar em tintas da Mary Poppins. Ter medo das ondas e acreditar no bom fim dos dois que andam entediantemente em conjunto. Vi uma vez um cabelo curto de lugar cuidado. Segurava um livro de tema pouco usual e olhava para ele (sem lhe pesarem as bolas pretas finais). Não conheço a cor do seu horizonte. Mas era só e parecia feliz. Quis eu, M, meter-me de rajada dentro daquela fotografia de almoço veloz. Ser assim… Tenho frio de inverno duplo, de camisola riscada (porque cada risca me abraça).



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À loucura dos corpos ninguém corre
Que a demora alongada é carícia, em tempo deste.
A palavra sai em andarilhos labirínticos sem princípio.
É bem-vinda nos recantos em que o caminho se esconde.
Cai a pele sobre
Pele em dia de sol fechado, olho fechado, porta fechada.
O tocar, treme, inesperado de tudo, surpreso pela
Surpreendente delicadeza.
Vê-se o carinho pendurado, como gota de água, sobre o que toca.
Quando cai desliza e o toque (treme…) sorri.
Conta-me uma história sem sentido. Deixa-o à espera, como cão ensinado, sem trela.
E leva-me com permissão silenciosa,
De quem possui razão, sem possuir coisa nenhuma.
À loucura dos corpos ninguém corre,
Que a demora alongada é carícia, em tempo deste.
Binómio do rumo tomado na loucura, no medo do desconforto reflexo.
Querer bem, como querer ser formigueiro que nasce dos pés e cobre o corpo de um dia confortável.
Á loucura dos corpos ninguém…
Mas é loucura ponderada, de tardes e noites falantes.
Nada é sem sentido, mesmo a loucura dos corpos,
Que não é loucura.
É cura.


publicado por Elisa às 22:42
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
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Avó(zinha). Lembras-te quando eu entrava na sala e tu franzias os olhos? Ficavam triangulares, as sombras da tua face vincavam-se e os teus lábios comprimiam-se numa vã esperança de se moverem. Avó(zinha)… hoje ao jantar, quando te relembrei assim, percebi que estavas a tentar sorrir para mim.



...
Um minuto e cinquenta
e dois
segundos
Press.
Pedes-me continuamente
que te dê campo
te deixe para ti
não te leve toda
a disponibilidade.
Os teus poemas desempoeiram
as minhas prateleiras sujas de tédio…
Já nem a vontade de os ler me permite
prender a involuntariedade
com que me faço presente
na tua vida.
Por tua deliberação éramos um sorvo
de gelado de olá, dos que derretem
na língua enquanto cai a folha
de Outono.
E o Outono já passou.



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Meu amor, se ao menos alguém soubesse que o que nos leva não se vê. A flor podia escorregar por ti sempre que lhe aprazasse, mas não o faz… Há mais para além do calor e da descoberta e da loucura e…
Meu amor, se ao menos alguém soubesse que o nosso céu é simples. Que perdeu o Deus que um dia teve mas que ainda reluz com as tardes de inverno. Que há mais nele para além do fumo e da distância e do vento frio e…
Meu amor, se ao menos alguém soubesse da poesia. Do espaço que preencheu quando podia ter ficado silenciada por entre a loucura. Que há mais nela para além da sonoridade das palavras e da mensagem e da leveza e…
Meu amor, se ao menos alguém soubesse da espontaneidade. Do que nos traz cada vez que surge um abraço inesperado, um olhar completo, uma mão só. Que há mais em nós para além da futilidade do que se vê nos passeios de rua e nas noites de cinema e…
Meu amor,
se ao menos alguém soubesse.



Domingo, 6 de Janeiro de 2008
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Chove, chove. Whyno chove.

Que o cinzento dos olhos não é só.



publicado por Elisa às 15:07
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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007
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Janeiro. O novo relógio já apontava as horas por nascer. Segui em frente porque me pareceu caminho único, seguro. Mudei de rotina e lutei sozinha. No dia seguinte voltei a lutar sozinha. E no a seguir. E. A amora doce chegou a meio e era ela que me agarrava. Rebolámos por wamwindshell sem saber… e arrumámo-nos em prateleiras de livros por ler. Ganhava um mundo enquanto ia perdendo o Outro.
Fevereiro. O relógio de pulso apontava firmemente as horas por nascer. Segui em frente não porque me pareceu caminho único mas porque era o único caminho, inseguro. A rotina afirmava-se forte e eu… lutava sozinha. No dia seguinte voltava a lutar sozinha. E no a seguir. E. Rebolávamo-nos pelo trabalho sujo que nos preenchia as segundas horas, amora. Warmwindshell crescia em planos e continha-se em palavras. Os anos doutro trouxeram a certeza do final daquela manhã.
Março. A amizade de sempre, com a delicadeza do olhar preso. A última ceia e o passeio liberto doutro, mão em mão. Seguravas-me e eu dizia, sem falar, ‘thank you uóvias creator’. Despoletar de mais uma luta neste primeiro dia de liberdade. Warmwindshell pintou-se em negrito, por necessidade. Noites fora do meu tecto e debaixo do tecto amigo, minha companhia e daquelas que molhavam a almofada. O olhar que me disse que eras tu, que te disse que era eu.
Abril. O reflexo mostrou-se na água que ainda boiava. Horas em ponto no relógio já velho, no pulso dormente. Aprendi e completei um dos meus sonhos de infância, testando-me na prática. Redescobri amigos, revivi passados e reencontrei lugares. O menino de bronze soou novamente nos meus olhos cinzentos. A viagem de comboio com o pássaro da alma ao lado e o sol que entrava pela janela. Tomar de unhas pintadas de cor de rosa e pombos na praça.
Maio. Solidão caseira. Lontra borralheira, livros abandonados e internet aglutinada. Encontros diários com o meu reflexo. Os pequenos que me trouxeram com o comboio que nos leva. O amigo a quem devia dar mais valor com a mão no meu joelho, ‘salta’. A escalada que consegui e fiz conseguir guiou o sorriso infantil e solto de quem é frágil.
Junho. O corpo puro, como é. Duas em três na rua do politécnico. O devaneio do beijo impensado… com o tremer daquilo que não chegou a ser. Saída naquilo que é hoje, que me leva nos braços para onde quero ir. A dor da que transporta o baú: a minha dor. A preocupação de quem guarda o baú: a minha preocupação. A insegurança e a tristeza e a incerteza que quem olha pelo baú: e eu. As noites com o peso da ausência of the keeper. Suspiros. Ires e vires. O presente. Madalena.
Julho. Meta trespassada por quem carrega o baú: meta trespassada por mim. Respirar fundo. A visita. O choro daquilo que, hoje, sei o que é. O passeio tardio com a amizade sublinhada no carro magoado, do lado direito. A descida perigosa, com o achado das pedras húmidas e o sol que se ia. A subida. Pausa de mensagem para o reflexo (do sol no mar). O nascimento da tríade forte que guarda segredos. A paixão das imagens-quatro e o teatro sonolento. Aquela imagem a preto e branco, no fundo de um prédio republicano, com a vontade de um abraço puro (que chegou no fim, porque o reflexo é forte). As horas.
Agosto. Dias, treze. Agarro-os de peito palpitante com saudade vagabunda. A aldeia velha da minha velha avó. Meu velho avô, a ir para longe. O reflexo cresce e fala comigo, como na história da sombra na boneca de montra no regresso da escola. O primeiro aniversário longe que quem nunca foi sem mim.
Setembro. O presente no atlântico, sem espelhos ternurentos. O smile voador e luminoso do oriente. Quadro laranja e escrituras no chão. Amizade simples. Sorriso estampado na cara feliz e rosada. O amigo que me deu a boa nova e inumou a má, one year after. Praia with sand angels e gaivotas ao fundo, ao som das cordas. Ferry em desabafos com a ilegalidade inofensiva. Pinturas na cara no reencontro feliz com a cidade natal. 19 anos de muita coisa num dia de chuva. A terça-feira de cravos ingleses.
Outubro. O. A diferença. O relógio de pulso parou debaixo daquele tecto. O presente. Os passeios e a cinemateca na América. HoH, always. Inodora, incolor e salgada, corre silenciosamente ao canto. As sortes e os desafios. Os sustos e os medos. O segredo. A faculdade que amo, como amo a faculdade. A turma, o grupo a novidade. As gentes. As roupas, os tiques, as vozes, as expressões.
Novembro. As surpresas corredoras. O amigo da outra saída, que me acompanhou. A amiga que sabe e se mantém. O reflexo, eu e Josh. Eu, o reflexo e Josh. A exigência que trouxe o apertar do tempo no relógio de pulso, que se apressa e rouba as horas paradas de Novembro. O intervalo das segundas alargado para terças, quartas, quintas. Semanas. Fins-de-semana frios. Dias felizes com refeições secas.
Dezembro. É este. Natal internacional. Passagem de ano em família. Muitos cá, muitos lá. Warm heart. Happiness. Zen mood. Tired eyes.
 Life changes by zapping.



Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
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Regras de escrita... pff! Não me, com elas, venham. Não me restrinjam às consoantes e vogais. Não me ordenem um ponto final no fim de uma frase §¥ Não me impinjam letras MAIÚSculas. Não me digam que o verbo vem a seguir ao sujeito. Deixem-me! Sei escrever mas escrevo como QUERO! Troco, mudo, omito e acrescento. Misturo palavras. Misturo símb#l#s. E misturo palavras e símb#l#s. Argh! Liberdade... como me alimentas!!
Com ½ de uma bússola ainda consigo ver o norte. O norte?! Não quero Nortes geográficos! Escondam de mim o Norte cartográfico! O meu norte decido eu com as minhas palavras e os meus símb#l#s. Decido-o e afirmo-o escrevendo.



Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007
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As viagens eram imensas e, na altura, custavam-me. as horas esticadas em paciência. O cabelo ainda me era curto e o gregoriano não rimava com a espera. Os quilómetros corriam debaixo das rodas e nos números do mostrador. Eu corria com o carro de olhos fixos nos cabos do telefone, à direita. Achava o mar nas ondas das linhas pretas suspensas pelos postes. Quando a noite trazia - a minha noite - não dormia. Desta vez era o reflexo da lua no vidro do carro que me prendia o sono. A luz era tanta que também via o meu reflexo. O frio. as memórias.


publicado por Elisa às 21:20
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Fui absorvida porque vi que a vida te está a fugir, São.
Conheci-te quando ainda não segurava a cabeça, pesada. Cresci com o teu braço sobre as minhas costas. Foste tu quem ensinou os meus ouvidos sobre as cordas. Foste tu quem me desatinou a insatisfação artística. Foste tu, tu que sempre esperaste de mim, quem me rabiscou a intranquilidade com notas de alento. Saltei para o outro lado com a tua mão a apoiar o meu joelho. E o dinamismo que. não esqueci. o cotovelo dos olhos franzidos de alegria. Hoje franze-los de… não sei. Mas não é coisa que me afague a preocupação. Já só te encontro a olhar para baixo. A tua voz era a minha certeza. Obedecia-lhe não só porque os teus anos pesavam sobre os meus mas porque sentia que a tua linha entrava pelo sentido certo adentro. Podia contar Dezembros contigo, vestida de pai natal, em vez de ovelhinhas, para adormecer…
 
Oh São… se me morres. adoeço.


publicado por Elisa às 21:08
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20 segundos. A obrigação de ser sempre. Sempre ser: não sei. O livro que me faz rir porque é sarcástico. [e eu não gosto de sarcasmos] Vi-te, perto. Porque não (intercalar temas)? Mistura a massa mãe, mistura. Saudade. Hoje é dia de São Martinho e eu não tenho capa Mas tenho um coração que bate calmo (com o segredo). Descobri que gosto do nome Vicente. É nome de gente convincente e de loja de móveis do Colombo.
-
Segunda descansa na cabeceira.
Durmo com ela segura pelo olhar
Calmo dos teus olhos, fundo
De núvens de primavera.
-

O estudo sutura-nos o tempo. O cansaço satura-nos As horas (que) vêm sós com as ofensas químicas e imunológicas. Coated vesicles in the proteins pathway. Rimos. Amiga à esquerda que percebe e se mantém apesar de Saber.

*



publicado por Elisa às 21:07
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
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s t r a y   f r o m   t h e   s t r a i g h t   l i n e   o n   t h i s   s h o r t   r u n



publicado por Elisa às 16:39
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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007
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há dias em que a alegria é tanta que nos salta pelos olhos, pela ponta dos cabelos desordenados, pelas palavras eufóricas, pelo abraço puro




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