Texto sujo. Desinteressante. Ladrão de tempo.
Igual a muitos outros.
Catarse.
nunca soubeste olhar para mim. nunca me preservaste. nunca paraste para me pensar.
naquele dia morreste-me. mataste-te de mim. [ou tiveste uma morte lenta, em que eu não queria acreditar]
mais uma no meio das que (já) contam demais. uma morte em grande. como o teu tamanho, vá lá. uma chacina singular, se és digna de tal. sem um esvair de sangue viscoso e pestilento mas, ainda assim, no meio do holocausto (aquele negado pelo bispo). um fantasma que assombra de dia, que de noite tem medo. uma lógica contrariada.
pratico culto a gente incerta, talvez seja esse o erro. erro tão a vermelho que, agora, já nem o culto pratico (com medo da negativa).
Não me cabem as grandes imperfeições dos outros. só as piadas secas e os narizes tortos, congénitos. Já sou balde suficiente de imperfeições. a contar pelos cabelos eriçados.
Tenho arranhões nas mãos. dos gatos de cidade. Só me ardem quando lavo a loiça e a roupa suja. mas todos os males custam a sair, até as nódoas.
Uma aproximação não exige (espaço). A proximidade é o (espaço) da aproximação. Para haver aproximação não (espaço) que haver proximidade. Por (espaço) telefono-te e digo que quero estar contigo. Tu dizes-me (espaço) para fechar os olhos e me imaginar a teu lado. Eu, insatisfeita e amuada, (espaço) a resposta e desligo. Para (espaço) aproximação requer proximidade. É por isso que, antes de te amar (espaço).
Há dias em que aborreço o que escrevo. Em que não me apraz ser poeta e me deleita ser poeta. Ridícula dubiedade. Tento aceitar que não sou poeta! Ou que os poetas não o são todos os dias! Ou que sou poeta da farinha amparo ‘Compre, compre que nunca sai caro!’.
Existência Q, doença pelo Cox e Ela.
O corpo tem muitas caras e, a alma, tem muitos corpos.
Ele ruma contra a maré.
Os elogios são edemaciantes. Afectam particularmente o queixo e, os lesados, tendem a apresentar uma lordose cervical acentuada. A roçar o patológico.
Provérbios-morte de uma relação a prestações.
(doença) Quem na pele não se põe, da vida não percebe.
(convalescença) Quem muito dá, tudo perde.
(paliativos) Quem fica, sempre vai.
(morte) Quem chora, não consente.
Há qualquer coisa de entediante na insipidez das pessoas.
Cortem-me os dedos. Vá, venham! Venham de olhos escanzelados e com vontade esganiçada de furar vidas como quem fura balões. Venham de cheiro pestilento ou com o perfume opulento da loja mesquinha de toda a gente. Venham incultos mas bem enfarpelados e tragam um serrote afiado e de marca. Ou venham, até, esfrangalhados e com uma faca de cozinha. Venham torcidos para a frente, de passos enviesados, ou venham direitos e entroncados. Venham de boca afiada ou taciturnos e calados. Tragam gravata ou cachecol de lã. Venham como quiserem e bem vos aprazer. Que eu cá me fico.
Podem roubar-me os dedos mas o resto fica, meus amigos.
sou abrid’oira de caminhos.
desbrido ideias. equívocos. cómodos ninhos
de mentira e de engano. atiro-te para o mar
profano. do erro. do chamado ‘mundano’.
sou a pedra no sapato. incomodativa,
nada de concreto. há em mim, e agora
em ti que te roubei do caminho certo
uma constante infindabilidade. medo
de não ser o que querem. de comer do prato
ao lado. de ofender o fado. a sina de ter sido,
mal-criado. um engano despercebido. de não ser.
aceite. ser uva ou azeitona. ser vinho ou azeite?
que importa. fico na ronha. durmo no ano todo.
cheio de brincar ao Carnaval. de sentir e fazer mal,
mostrar ao contrário. agradar ao vigário. de ignorar
o que se sente
A humidade de um banho.
O J aprende a ler.
Não me apetece ser poética. Apetece-me ser estúpida.
O J era um tipo afunilado e de ar rafeiro. Ele vivia-se feliz. Comia dióspiros porque lhe fazia lembrar o amor. Dizia ‘o amor é como um dióspiro maduro, não há fruto mais doce’. Muitos o encaravam como presunçoso e exibicionista, mas ele era pequeno e de escassa significância, e sabia disso. Estava confortável no seu tamanho centimétrico: cabia na sua cama sem que os pés ficassem de fora. Passeava-se, quando lhe dava na veneta, por ruas que não constavam na lista caprichosa de pontos turísticos.
Contentava-se com pouco. Só lhe ferviam os azeites na presença de gente mesquinha de olhares frívolos. Andava tabuamente direito, como se tivesse sido planeado por um alinhamento arquitectonicamente bem estruturado de traços rectos. Raramente o importunavam, afastados com a imponência da sua estatura e a estranheza das suas ideias e opiniões pioneiras.
Dentro de si havia uma sala minuciosamente arrumada. Tinha prateleiras profundas onde tudo cabia organizado por temas. No chão ficavam sempre um ou dois pedaços, para não dar a ideia que era uma sala inabitada nem a sensação de que já não havia mais nada para tratar. Havia um sentimento constante de infindabilidade. Havia um sentimento constante.
O J nunca aprendeu a ler. Nasceu com capacidade atlética de reconhecer as palavras e transpô-las em sensações, caras e lugares. O J tinha essa chaga. Doía-lhe a sensibilidade afinada para a leitura. Havia quem lesse e não sentisse, mas ele estava confinado aos limites exigentes da leitura sentida. O J cheirava a palavra morte e chorava a apalavra saudade. A morte cheirava-lhe flores fúnebres, crisântemos. A saudade apertava-lhe a existência.
O J era assim: um tipo afunilado e de ar rafeiro. Um rafeiro bonito, dos que tombam a cabeça de lado para pedir comida.
Os rafeiros são o melhor amigo do Homem.
Podias estar mais perto. Talvez o suficientemente perto fosse determinado pelo perto suficiente para me embaciares os óculos. Podias apertar a minha cintura com força decidida, não a força trémula e esguia com que arriscas a tua sorte no meu corpo. Podias afastar o cabelo grisalho dos meus olhos verdes, fugidos da igreja, não só desviá-los rapidamente como quem esconde gestos entre meias palavras de conversa. Podias mostrar-te mais transparente, não me deixar sozinha com adivinhas e charadas do segredo ilegal que te apresentas. Podias.
Tens a dose certa de loucura. Talvez uma colher de chá a mais, mas só para espicaçar as linhas rectas sobre as quais construí a minha casa. Tens as mãos gretadas do frio, talhadas pelo vento que não tem ninguém que o aqueça na cama. O vento não tem cama nem tem ninguém que faça amor com ele. Não tem onde ficar. Tens uma mão livre e uma cheia de muita coisa. Tens uma mão livre. Essa é a minha mão.
O frio sai do congelador em jeito de tornado e corre pelos cantos da casa. Há um riso maléfico neste jogo do quarto escuro. Foge pelas frinchas das janelas e pesca mãos para polir. O frio não tem dó. Não tem cama nem ninguém que o ame. Rói, em jeito de petisco, as mãos livres. Um dia roeu a mão que estava estendida para me apanhar e eu caí.
Mas há mais.
Se cada ano te contasse um dia, como este ano pareceu contar, terias agora vinte e um dias. São os teus dias, os vintium que passaste. Ainda vês o mundo com ingenuidade. Ainda gostas que te afaguem o cabelo quando estás triste ou doente. Se te oferecesse um baloiço tinha a certeza que te ias sentar nele em dias quentes de Outono. Ainda és a criança que nunca conheci mas que gostava de ter conhecido. Cabelos bonitos, daqueles que só se vêm os filmes e anúncios virtuais da Loreal Paris. É Paris, ali tão perto de Londres. Às vezes noto-te numa peleja para te veres nesse mundo. No sotaque britânico. No chá das quatro com biscoitos da avó. Nas ruas confortáveis, que não são as nossas. MB. A vida não nos tem aberto janelas solarengas, daquelas que aquecem os cobertores nas manhãs de Primavera. Não nos deu mapa, nem bússola, nem guia, nem sapatos que não fazem bolhas. Já não nos abraça ao acordar, já não nos segreda romances de amor, já não nos oferece rebuçados de mentol nem diz ‘Que olhos tão bonitos!’. Andamos de olhos cansados.
Tenho brócolos no prato. São verdes escuros - já amadureceram. Cozinhaste-os lentamente, para ficarem doces ao toque.
A faculdade tinha uma ampulheta. Todos geriam o tempo pela ampulheta. Quando o tempo foi instalado naquela instituição vieram os mais ilustres da sociedade vislumbrar tamanha obra. Os alunos não ousavam chegar mais tarde. O último grão de areia delimitava as fracções entre um repreendimento e um ‘bom menino de Jesus’ já sentado na secretária. Hoje, anos mais tarde, o fio que suportava o grande peso da ampulheta está gasto. O vento que entra pelas portas entretém o tempo nas lengalengas.
Até a missa mudou para Sábado.
Era uma vez uma janela cega que folheava álbuns de fotografias.
Post para dizer blá blá blá.
Desculpa.
Palavra inventada para dizer nos erros múltiplos de dez.
Nunca te menti.
Sou despenteada e tenho a cara suja.
Um dia olhei para ti.
Amo-te.
Às vezes doi.
Mas, no geral, é a melhor coisa que alguma vez senti.
Sem sentido.
Esta coisa das prioridades...
A prioridade é um boi sem cornos que, como é grande, se impõe na paisagem e se vê bem ao longe. Há pessoas com miopia que o confundem com javalis, o que dá uma misturada demasiado grande para quem quer fazer as coisas como deve ser.
O gajo das baratas coleccionava baratas. Vivas, mortas, mais para lá do que para cá. Bataras asiáticas, europeias e americanas. Baratas com dupla nacionalidade. O gajo das baratas coleccionava baratas.
Havia os que lhe batiam à porta para ver o estaminé. Os que não se aproximavam da casa mas inventavam mitos que corriam raças e países. Os vizinhos isolaram o quintal com plástico para evitarem terem baratas a comer as couves que plantavam no quintal. Os familiares mandavam postais de boas festas e, quando o gajo das baratas os visitava, simulavam que o entendiam como um ladrão e enchiam-no com raid em defesa pessoal.
O gajo das baratas gostava de baratas de um modo peculiar. Gostava porque sim e que não o chateassem com isso.
Sai a catraia à rua.
Sua mãe havia-lhe dito, em jeito de raspanete, Maria, o sol é para quem o merece! Hoje não sais! A catraia pensou que o seu lenço novo merecia ser polido e saiu a rua.
'o meu umbigo'
e pronto
Sempre houve daquelas perguntas para nós mesmos. As que fazem mechericos na pontinha de senso que tentamos ter quando pensamos.
Meu Deus, tira-me a lógica e ainda me resto... Tenho as mãos secas.
Porque o dia merece, sento-me à sombra do sobreiro para um desassossegado relato. Saco a lapiseira da algibeira deslavada do velho. O bico está redondo e enerva o papel que escapa à cinza. Que sina malvada esta: até ao lápis me exige cabeça fresca!
Estava, então, um estorricante dia de sol. Lá na aldeia o povo abrigava-se do matreiro na tasca do Ti Jaquim, o único estaminé que tinha ar condicionado e umas quantas ventoinhas nos cantos.
Vem da chofra o Zé do Pipo. Espera à porta até o olhar descobrir cadeira livre naquele acampamento de odores castiços. A ‘máquina do frio’, exactamente por cima da mona calva, esfria-lhe o sentido e arrepia-se. Levanto a mão dando-lhe sinal que junto à minha lavra há lugar para traseiro abundante, como o do velho. Caminha dobrado em ponte, como que a pedir às crianças para saltar ao eixo, até atingir a cadeira em que se senta com dificuldade. Abana-se custosamente até arranjar cama jeitosa para o abundante assento (que criou à custa da comida do lar de dia, desde que a sua mulher foi para outros mundos) e, durante os aprontos, pergunto-lhe como vai a vida. Pior pergunta não podia ter sido acarretada pela minha vã inteligência. Escorre-lhe, enquanto o tinto cai pela garganta, a lista pormenorizada de queixumes agrestes (dos que haviam estado a fermentar desde os tempos em que me mudei para a terrinha). Isto tem sido um pará para burro. [funga, como que a encontrar consolo na sua tristeza] Cá na minha chafarica já não nasce o sol há muito tempo. E, fitando com atenção, vejo as nuvens de inverno a nascer no olhar do velho. Depressa me arrependi da inocente pergunta. Mas ouvi. A médica está inclinada que esta dor que me morde seja a ciética. Isto ó-despois arremexe aqui com os mês entestinos. Interrompi-o para lhe dizer que o chouriço que comia todas as manhas na tasca não adivinhavam bons destinos para esses males, como que a tentar aconselha-lo sem ferir susceptibilidades. Tire daí o sentido que eu não faço isso! Defendeu-se de arma em punho. E calei-me para ouvir novamente. É certo que a vida do pobre não era fácil. Pouco lhe caía na algibeira ao fim do mês. Mesmo contados os anos de trabalho explorado nos campos do Alentejo, a força que roubou às pernas a fazer queijo e, a somar, os últimos anos de esforço sobre as ordens da ‘cãmbra’ da cidade vizinha (quando os ossos já lhe pesavam). Todos sabem que a estrada de alcatrão até à terrinha havia sido obra principal do desgraçado. Já não me aguento nas canetas. Nem a cresta posso fazer! Minhas ricas abelhas, onde eu havia de chegar... A minha mulher cantava-lhes, sabia? Tinha-lhes muita estima. Agora de mim? Se lá volto um dia escaldam-me... Sou um monstrengo com um esgotamento no cérevro. Nesta fiquei perplexo. Nunca tive jeito para mais do que umas pancadas ligeiras nas costas, e foi o que fiz. Senti-me pequeno na minha escassa grandeza.
História fantasia.
Houve hoje um velho, com óculos de Harry Potter, a aparecer na consulta de urgência. Vinha desajeitado e aparvalhado (a varinha mágica era o cajado, roido das pedras da calçada da tasca dos copázios). Sentou-se porque o puxaram para a cadeira: caso contrário ficaria de pé - há que obedecer ás forças armadas! /e nisto entram as enfermeiras, de seringas-rebarbadoras de metro e meio, com cara de serventes da PIDE e roedoras nazis/ O homem senta-se e olha para o médico com olhos escanzelados e perdidos no tempo e no espaço. Se lhe dissessem que era preciso matá-lo para resolver a enfermidade estou certa que concordaria. Agradeceria, até, ao doutor dizendo ‘Muito obrigado Sr. Dr.! Amanhã a minha filha traz-lhe um coelhinho lá da criação, Sr. Dr.’ /seguir-se-ia vénia dorida ao Deus de ninguém/. Perguntaram-lhe a idade. Fizeram-se piadas à volta dos anos de sol daquele bebé carnudo e encarquilhado. Um ajuntamento fofoqueiro e troçante rodeando uma criatura. O velho, na sua enervante inocência, recitou um poema para a resposta. (...)Nasci a 2 de Fevereiro de 1918, numa terra fantasia.(...) Os olhos circundantes abriram-se num misto de admiração estúpida, com os cantos dos lábios a quererem esconder a vergonha de uma gargalhada ofensiva, a cultivarem emoções falsas por um homem velho que AINDA sabia fazer poemas.
Prespegaram-lhe o estetoscópio frio nas costas cheias brancas-cal, rafeiras de trabalho árduo de tempos idos, repuxando-lhe a camisa que a mulher lhe comprou (antes de ir para o fantástico céu que não existe) na tabanca com os trocos que mal chegavam para, no fim do mês, ter o prato com um adereço alimentar. Fizeram-se-lhe vincos na pele magra mas o orgulho do homem-sensação-de-circo ignorou as irritantes reincidivas de descuido. /e entretanto chegam gentes de todo o lado, espreitando à porta e à janela, gritando juizos de análises e exames e diagnósticos, como quem espera na praça para ver o tormento dos que desagradam à inquisição/ Comentam-se destinos e a má sorte do velho. Chega depois o relato sensacionalista, acrescentado de pontos falsos à moda dos media modernos, da vida sofrida da criatura. Houvem-se ‘ahhh’ colectivos. Caras de surpreendimento. (...) Mas ninguém trata do velho.
Morreu a 2 de Fevereiro. No dia seguinte a filha leva o coelhinho ao médico.
Belo pitéu nessa noite.
Matem-me. Esta amargura.
Hoje diagnosticaram-me a doença de ser ninguém. Como era ninguém não me sabiam tratar. Não arranjaram cura para coisa inexistente. Fiquei assim, com o aperto em lado nenhum, a contorcer-me por coisa nenhuma.
2-6-216-8-9
# E dói-me tanto ver-te de lábios serrados. Quando as pálpebras, sensíveis, deixam de ter força suficiente para mostrar a cor. Oculto-me de mim (de ti) e sou fria, distante e inatingível. Sei que te toca... e se te toca a ti: atormenta-me. És-me o ar respirado sofregamente. O suspiro de alívio. O ‘quero-te bem’ segredado. Guardar-te-ia em lugar inacessível não fosse o meu respeito por quem também te gosta.
Pintalgas-me a vida de arte. Sou um quadro pintado às tuas mãos. Miscelânia curiosa dos teus sons, imagens, toques e palavras. Compões-me todos os dias um bocadinho. Sem pensar, transformas ângulos, cores, texturas e formas. E eu permito-te. Às vezes sem saber quem é o pintor e quem é o quadro. Confio em ti. Nas misturas e trocas de papéis. #
Se ela morresse hoje vê-la-iam a subir dançando ‘just for now’.
Ficaria o peluche a dormir sozinho nos lençóis com cheiro ao seu gel de banho.
Os segredos escondidos no caderno, a tinta preta.
A guitarra torta, encurvada pelo calor dos canos que aqueciam o quarto, ao canto.
Os livros de estudo riscados com cores pindéricas. Canetas abertas ao lado, a secar.
O sol a pôr-se e a máquina fotográfica ligada, no parapeito da janela. A Bateria a gastar-se.
As tristezas por resolver e os carinhos por dar. Suspensos à volta dos destinatários.
Os sonhos divididos por quem um dia ouviu os desabafos.
O bilhete de avião por comprar.
Ela também não faria as malas.
‘Wake me up before you go.’ lembrei-me quando me apercebi que te foste. De vez. Não te custou sair de viagem. Preparaste-te para isso pelos arrastados anos da tua vida, sem nunca fazer a mala. Não vais regressar mas esperas o meu sorriso caso o teu azul me olhe de novo, naquele lugar que sabes certo. Te-lo-ás. Meu conforto.
Chegava-te, cansada e desarranjada, naqueles dias em que as histórias me empolgavam. A sala anexo era fresca e aconchegava-me como um cobertor no Inverno frio. Ficava-me. Perguntavas-me por mim. Pelos caminhos, pelas vitórias, pelas derrotas. Contava-te. Com mais ou menos linhas. As omitidas não te eram transparentes. Sabias me adivinhar muito bem. Talvez soubesses adivinhar toda a gente.
Relagavas-me com as tuas leituras do mundo. Ouvia-te atentamente. Crescia pelo rumo que me mostravas. Pelos presentes que me desembrulhavas cuidadosamente, para não estragar o papel (não fosse um dia ser importante). Acariciavam-me as tuas palmadinhas na cara, com a precisão trémula.
Ponto final.
Qualquer dia continuo.
Fecho os olhos e estou lá. Silenciosamente, no meio de toda a vibração de corpos.
Em tempos fui crente. Não fui absoleta nem me deixei levar sem escrúpulos. Não me ofereci, não me deitei á maré, não me deixei aprisionar. Não vendi os meus valores, não cedi à chantagem. Fui crente à minha maneira. Fui feliz na minha forma de acreditar e nas minhas jovens interpretações do que era a vida. Questionei, fui ríspida com injustiças, com a passividade de algumas coisas que me incomodavam a existência trémula. Forte não fui. Mas ele esticava-me o olhar, empurrava-me gentilmente contra tudo e ouvia os meus segredos auto-censurados. As mãos tremiam de segurança. Os gestos já não tinham a precisão do alvo. A velhice comia-lhe o cabelo, a cor azul dos olhos, as pestanas. Quando falava todos ouviam, o discurso era corrente e lúcido.(...)
Tu, a meus olhos
Expressões. Não tomo este texto como uma abordagem anatómica de li, de longe. És muito mais que a beleza dos contornos ou a delicadeza do toque. Hoje escrevo e descrevo as tuas expressões.
Nas manhãs de inverno, em que me chegas de nariz vermelho e resfriado, sorrio para ti. Notar-se-á o quanto te quero bem se descrever os pingos do teu nariz, no constipado leve e constante dos teus Dezembros, como uma gota de água numa nascente. Não me preocupo. Limito-me a ser honesta. O resto da face vem pálida. Talvez haja, de quando em quando, um pouco de rosado na maça da cara... pouco mais. É assim.
Em dias livres do peso das responsabilidades, do aperto do tempo ou do peito agitado por algum motivo de força maior, retribuis o sorriso. Nascem as covinhas suaves na ponta dos lábios e os olhos desenham linhas molhadas de contentamento.
(...)
Mudo a cor. No fim que importa a cor com que escrevo?
Os meus óculos cair-te-ão, sempre, como as luvas pretas.
Chove, chove. Whyno chove.
Que o cinzento dos olhos não é só.
O estudo sutura-nos o tempo. O cansaço satura-nos As horas (que) vêm sós com as ofensas químicas e imunológicas. Coated vesicles in the proteins pathway. Rimos. Amiga à esquerda que percebe e se mantém apesar de Saber.
*
s t r a y f r o m t h e s t r a i g h t l i n e o n t h i s s h o r t r u n
há dias em que a alegria é tanta que nos salta pelos olhos, pela ponta dos cabelos desordenados, pelas palavras eufóricas, pelo abraço puro
. ...
. ...